Granizo nos campos de golfe do Albuquerque.


Meramente ilustrativa

C ai granizo na Madeira e, de repente, os campos de golfe de Albuquerque descobrem que afinal o paraíso subtropical também sabe atirar pedras do céu. Não é granizo qualquer, são bolas de golfe premium, caídas diretamente das nuvens, como se a meteorologia estivesse a devolver à origem aquilo que foi artificialmente imposto à paisagem.

Depois da tempestade, começa a verdadeira dor, snow mold, ice damage no green e o festival das faturas. Porque quando a neve (ou o granizo teimoso) é pisada por máquinas, carrinhos ou botas apressadas antes de derreter, compacta-se, sufoca a relva e transforma o green num laboratório de doenças fúngicas. É a natureza a explicar, com paciência zero, que relva de luxo não gosta de gelo nem de pressas capitalistas.

Claro que a despesa dispara, tratamentos, fungicidas, replantação, horas-extra, relatórios técnicos com nomes em inglês para justificar contas em português. Mas não faz mal. A água é quase de borla, os custos diluem-se, e os madeirenses tratam do resto. Afinal, alguém tem de pagar para que os greens continuem verdes, mesmo quando o céu decide brincar ao curling. Depois de infraestruturas o desporto de ricos pago por pobres, virá novamente um subsídio encapotado para resolver os problemas de um jogo que só dá despesa.

Há, no entanto, um lado pedagógico nesta intempérie, granizo do tamanho de bolas de golfe também pode acertar na carola dos promotores. Não para causar danos permanentes, claro, apenas para testar a resistência craniana às más ideias, aos projetos fora de escala e à convicção de que tudo se resolve com dinheiro público e discursos patetas.

No fim, quando o gelo derreter, as contas chegarem e os fungos florescerem, talvez reste uma lição simples, a Madeira não é um campo de golfe gigante. E quando se insiste em tratá-la como tal, até o céu responde… à pedrada.