E nfim, Natal. Abre-se oficialmente a época da mentira organizada, da hipocrisia social em horário nobre, dos abraços coreografados e dos sorrisos por obrigação. Por definição, chamo Natal a este ritual anual onde se finge bem-estar colectivo enquanto se normaliza a miséria privada. A encenação é simples: durante o ano inteiro ninguém liga, ninguém pergunta, ninguém aparece. Em Dezembro, surgem todos, familiares, amigos, conhecidos indesejáveis, sem aviso, à mesa alheia, atraídos não pela companhia, mas pela comida guardada em silêncio.
O padrão repete-se com precisão estatística. Premissa um: se fosse cuidado genuíno, existiria em Janeiro, Abril ou Agosto. Premissa dois: se só aparece quando há mesa posta, não é afecto, é oportunismo. Conclusão inevitável: o Natal tornou-se uma economia informal de aparências. Desejam-te “Feliz Natal” de frente e, pelas costas, desejam-te a queda, a falência, o fundo do poço. Sorrisos públicos, difamação privada. Democracia performativa das emoções.
A religião não escapa. As igrejas enchem-se por hábito, não por consciência. Observa-se quem veste melhor, quem conduz o carro mais caro, quem oferece o banquete maior. Sermões moralistas ecoam de púlpitos ocupados por homens tão falíveis quanto qualquer outro, mas investidos de uma autoridade que raramente se submete ao mesmo escrutínio que impõe. Santidade encenada, ética terceirizada.
Na política local, o guião é conhecido: proximidade fingida, empatia de campanha, memória curta. O cidadão vira figurante. Ninguém pergunta se já comeu em Fevereiro, se tem renda em Junho, se tem saúde em Outubro. A pergunta surge apenas quando é segura, correcta, inofensiva, e vazia.
E depois há o mercado, o verdadeiro soberano. As grandes empresas oferecem luxo a quem já o tem: supercarros para super-ricos, férias douradas para quem nunca passou frio. Aos pobres, sobra o rótulo: suspeitos, incómodos, descartáveis. O consumidor não é visto como pessoa, mas como carteira ambulante. Predação sazonal com luzes de Natal.
Este texto não pede piedade. Exige lucidez. A falsificação emocional corrói a confiança, a desigualdade corrói a democracia, e a indiferença corrói tudo. Se o Natal não serve para reconhecer quem sofre o ano inteiro, então não é celebração: é propaganda. Justiça não é volume, é equilíbrio. E equilíbrio começa quando se diz, sem filtros, aquilo que muitos sentem — e poucos ousam escrever.
