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O cidadão Miguel Albuquerque, quando declara que a greve geral é “despropositada” (link), expõe uma verdade crua: fala como presidente, não como alguém que alguma vez sentiu o peso real de um salário curto, um turno interminável ou a chantagem silenciosa dos grandes grupos económicos que tanto protege. O cidadão Luís Montenegro repete o refrão, diz que a greve “não faz sentido” e insinua motivações partidárias, revelando a mesma distância estrutural de quem nunca foi trabalhador base nem conhece a exaustão que alimenta a economia real.
Esta convergência política não é coincidência; é padrão. Albuquerque e Montenegro alinham-se, de forma transparente e sem hesitações, com os executores de sempre: os interesses corporativos que tratam o trabalho como custo descartável e o trabalhador como ferramenta substituível. Os dois defendem o conforto dos lobbies, das maçonarias de conveniência e das elites empresariais que lucram com a precariedade institucionalizada. Ignoram, com facilidade perturbadora, que sem justiça laboral não existe democracia funcional; existe apenas um regime híbrido, uma democracia formal com práticas que roçam o autoritarismo económico.
A crítica não é ideológica; é factual. A história mostra que quando governos ridicularizam greves, neutralizam contestação e deslegitimam movimentos sociais, aproximam-se perigosamente de modelos políticos onde a participação pública é tolerada mas nunca valorizada. É o ADN das democracias iliberais: direitos na vitrine, desigualdade na prática, silêncio imposto pela pressão económica e pela propaganda bem oleada.
Num contexto de salários estagnados, habitação inacessível, carreiras congeladas e serviços públicos fragilizados, declarar uma greve “sem sentido” é um insulto à inteligência dos cidadãos. É negar a evidência empírica: trabalhadores cansados, sobrecarregados e invisíveis são o motor que mantém vivo o país e a Região. São eles que carregam o custo das crises, enquanto outros acumulam privilégios blindados por influências e negócios de bastidores.
Quando líderes executivos desprezam o direito à greve, perdem a legitimidade moral para governar. Um governo que desvaloriza os seus trabalhadores afasta-se do princípio básico do Estado democrático: servir o povo. Por isso, Luís Montenegro e Miguel Albuquerque deveriam assumir responsabilidade política e dar lugar a quem queira realmente representar todos os cidadãos — não apenas os círculos económicos instalados.
A greve existe porque a injustiça existe. E enquanto houver arrogância no poder, haverá ruas cheias de quem não aceita ser tratado como mão-de-obra descartável.
