O que se viu, afinal, nesta entrevista do senhor Ramos?


V iu-se alguém visivelmente desconfortável, a arfar, preso a uma postura que já não lhe pertence. Um homem que continua a falar e a comportar-se como se ainda fosse Secretário Regional, incapaz de assumir que esse tempo já passou. A postura foi desadequada, o discurso confuso e excessivamente mecânico, como se estivesse a reproduzir um guião antigo, já gasto, sem qualquer adaptação à realidade atual.

Assistimos a uma sucessão interminável de nomes e cargos, de pessoas que a esmagadora maioria dos cidadãos não conhece nem sabe exatamente o que fazem, tudo isto pontuado por estrangeirismos desnecessários, usados mais para impressionar do que para esclarecer. Um discurso vazio, distante das preocupações reais de quem depende diariamente do sistema de saúde.

O mais grave é que falou como se ainda estivesse no exercício de funções governativas. Recorrendo sistematicamente ao “nós” e ao “vamos”, foi debitando dados e decisões do tempo em que foi secretário: falou da gestão do SESARAM, dos centros de saúde, de projetos passados e de estruturas criadas há anos, como se isso resolvesse os problemas de hoje.

“Vamos ter”, “nós temos”, “vamos pôr o Porto Santo a andar”, “nós temos o centro de simulação clínica”, “desde dois mil e tal”… um discurso repetido, gasto, sempre acompanhado do mesmo refrão: temos o melhor serviço, o melhor disto, o melhor daquilo. Uma narrativa de excelência permanente que não encontra eco na experiência diária dos profissionais de saúde nem dos utentes.

Enquanto isso, é público que o senhor anda a viajar pelo mundo, em negociações com empresas, mas aquilo que realmente interessava aos madeirenses ficou sem resposta. Quando confrontado com a questão central,o novo hospital, não respondeu de forma clara, concreta ou responsável. Esquivou-se. Falou muito, mas disse nada. E sobre o essencial, nada.

A única informação minimamente concreta que saiu daquela entrevista foi quase caricata: ficámos a saber que o senhor Faria Paulino estará, ao que tudo indica, a preparar uma inauguração… para daqui a quatro anos. Quatro anos! Como se isso fosse uma resposta aceitável perante a degradação evidente do sistema de saúde. Santa Mãe de Deus, que nos ajude, porque a realidade é demasiado séria para este tipo de ligeireza.

Digo-o sem rodeios: considero-o profundamente incompetente para o papel que insiste em desempenhar nos bastidores. Devia, com humildade e sentido institucional, deixar a Dra. Micaela trabalhar. O seu comportamento tem sido um dos fatores que contribuem para o desastre que hoje se vive na saúde na Madeira, em particular pela gritante falta de comunicação, pela ausência de uma linha clara e pela permanente sensação de descoordenação.

O senhor Ramos está sempre atrás dos acontecimentos da Secretaria. Limita-se a reagir, a comentar, a aparecer como uma sombra permanente. Parece estar à espera que a Dr Micaela falhe. É preciso saber sair! Tudo eticamente reprovável. Rua!

 Excerto: