M uitos consumidores portugueses estão a atingir o divórcio com os canais de TV, entre o custo da fatura mensal e o valor real do conteúdo entregue. O modelo de negócio das operadoras de telecomunicações (NOS, MEO, Vodafone) parece estar estagnado numa era em que o streaming já ultrapassou, mas o "custo de saída" para o cliente continua a ser alto e desprotegido.
Os pacotes são a ilusão da quantidade, porque os canais temáticos tornaram-se lixo. As operadoras vendem pacotes de 150 ou 200 canais como se fosse um sinal de abundância, mas na realidade são canais "enchimento". Muitos são canais internacionais de baixo custo ou versões "Timeshift" que não acrescentam valor. Canais que outrora eram de prestígio (como o History, Discovery, Odisseia ou National Geographic) tornaram-se repositórios de tretas sem fim, de reality shows repetitivos e sensacionalistas, perdendo a componente educativa.
Durante as festas de Natal e Ano Novo, em vez de uma programação premium, assistimos a uma reciclagem de filmes de há dez anos, em loop, em todos os canais de cinema. Nunca vi umas festas tão triste de programação.
Atualmente, a televisão digital terrestre (TDT) é pobre em Portugal. As operadoras aproveitam-se disso para cobrar alugueres de "boxes" e serviços por cabo para dar acesso a canais que, em teoria, deveriam ser de acesso universal e gratuito. A longo dos anos as operadoras destruíram o serviço público. Se a RTP é paga pelo contribuinte (via taxa audiovisual na fatura da luz), o acesso a ela e aos canais generalistas básicos deveria ser simplificado e gratuito, sem obrigar à contratação de pacotes de 40€ ou 50€. Até nos deram os canais generalistas portugueses nalgum tempo, mas a "box" tornou refém o Serviço Público. Ninguém fiscaliza nem faz cumprir. Existe uma passividade dos reguladores (ANACOM e ERC) que permite que os operadores fidelizem clientes por 24 meses com base em equipamentos, enquanto a qualidade do serviço (o conteúdo) degrada-se unilateralmente, para além de tecnicamente não permitirem o acesso aos canais nacionais.
O modelo "linear" (ter de ver o que está a dar naquela hora) está a morrer. O consumidor prefere pagar 10€ pela Netflix, Disney+ ou HBO, onde escolhe o que vê e em alta qualidade, do que 40€ por uma grelha cheia de "rebuçados" (canais de música de fundo ou canais de notícias repetitivos). As operadoras em Portugal tornaram-se "vendedoras de tubos" (internet); o serviço de TV é apenas um acessório que usam para inflacionar o preço.
Para que o sistema mude, seria necessária uma intervenção legislativa que desagregasse obrigatoriamente os serviços. Permitir ter internet de fibra de alta qualidade sem ser obrigado a pagar por 100 canais de televisão que ninguém vê. Facilitar que qualquer televisão moderna aceda aos canais nacionais sem necessidade de uma box proprietária paga.
Se calhar estou a falar de algo que é o reflexo de um mercado oligopolizado, as três grandes operadoras oferecem quase o mesmo, ao mesmo preço, e com a mesma falta de qualidade na curadoria de conteúdos. Na Madeira são só duas. É mais um exemplo do "sistema", grandes empresas garantem lucros garantidos através de fidelizações agressivas, enquanto o cliente paga por mediocridade.
Isto só se resolve com o momento "Tesla", um boicote generalizado a estes pacotes de TV. Anacom, curadorias, eleitos pelo contribuinte não estão a proteger o consumidor.
Nota: o que se aproveita são os canais de notícias portugueses.
