Silêncio não é ausência, política não é festa


C onfundir liderança com aparições em jantares é reduzir a política ao folclore. O texto que circula como crítica interna ao PS-Madeira não analisa: caricatura. Não prova: sugere. Não propõe: ridiculariza. É um exercício de sarcasmo fácil que tenta substituir pensamento por ruído.

A premissa central, “não aparece, logo abandona”, falha logo à partida. Parte de uma definição pobre de liderança, medida em fotografias e não em decisões. Exige presença social como se fosse critério de governação. Ora, liderança política não é desfile, é preparação. Não é selfie, é trabalho. Não é agenda social, é agenda pública.

O argumento vive de generalizações (“ninguém vê”, “a elite não se mistura”), sem dados, sem critérios, sem prova. A ausência de factos é mascarada por ironia. É o clássico erro lógico: inferir abandono a partir de silêncio. Silêncio pode ser método. Pode ser deliberação. Pode ser responsabilidade. Num contexto polarizado, falar menos e trabalhar mais é, muitas vezes, a escolha mais séria.

A crítica personaliza o ataque para evitar o essencial, onde estão as alternativas? Que propostas existem? Que estratégia concreta é apresentada? Nenhuma. O texto limita-se a desacreditar, esperando que o vazio faça o resto. É política de ressentimento, não de construção. E isso fragiliza quem a pratica.

Há ainda uma confusão perigosa entre militância e espetáculo. Militantes não são figurantes de festas; são sujeitos políticos. Respeitá-los não é convocá-los para patuscadas, é oferecer coerência, estabilidade e rumo. A democracia interna exige método, não barulho. Exige foco, não fogo-de-artifício.

Num tempo de desinformação e radicalização, a política responsável recusa o circo. Prefere a disciplina à impulsividade, a análise ao improviso, a solução ao slogan. Governar, ou preparar governo, implica estudar problemas reais: salários, habitação, serviços públicos, coesão social. É aí que a liderança se prova.

Quem acusa silêncio como falha deve explicar o que faria diferente. Quem critica deve assumir o ónus da alternativa. Sem isso, a crítica não passa de performance. E a política não precisa de atores. Precisa de trabalho sério, continuidade e coragem para não confundir popularidade momentânea com legitimidade duradoura.

O tempo julgará. Até lá, menos ruído e mais substância. Porque política não é festa. É responsabilidade.