A Região Autónoma da Madeira e a República Portuguesa são hoje assombradas por dois teimosos fantasmas políticos: Alberto João Jardim e Cavaco Silva. Não são almas penadas literais — são figuras que, mesmo fora do palco, continuam a rondar os corredores onde antes ditavam cada gesto, cada sorriso e cada orçamento.
Ambos deixaram o cargo, mas não deixaram a influência.
E a política portuguesa, que já tem dificuldade em libertar-se de hábitos velhos, continua a caminhar com estes espectros culturais à espreita.
Miguel Albuquerque, na Madeira, governa rodeado de tiques jardinistas como quem herda os móveis da avó e insiste que ainda está moderna.
Luís Montenegro, no continente, governa como um eco longínquo da velha cartilha cavaquista: rígida, fria, obcecada pela “ordem”, desconfiada de tudo o que cheire a Estado Social.
É quase uma “democracia de ventríloquos”: fala-se no presente, mas a voz vem do passado.
As novas leis anunciadas pelos dois governos — Regional e República — têm um cheiro suspeito a manual do século XX: austeridade reciclada, autoritarismo disfarçado, neoliberalismo camuflado de modernização, e aquela velha arrogância governativa que trata os cidadãos como espectadores e não como participantes.
Quando Jardim e Cavaco governavam, ambos cultivaram — cada um à sua maneira — um estilo de poder fechado, paternalista e profundamente desconfiado da crítica.
Hoje, as sombras destes estilos reaparecem, como ecos de um tempo em que contestar era quase um acto de coragem.
Mas há um pormenor essencial:
Nem a Madeira nem Portugal pertencem a elites eternas.
Nem a partidos que se julgam donos do território.
Nem a lógicas maçónicas, empresariais ou caciquistas.
A democracia não é um negócio privado.
É um espaço público.
Pertence ao povo — aos trabalhadores, aos precários, aos jovens sem casa, aos idosos com pensões ridículas, aos que nunca tiveram um cunho no gabinete certo.
Os fantasmas podem rondar os corredores — mas só ficam se o povo deixar.
E esta é a mensagem final:
Portugal não precisa de exorcistas. Precisa de coragem democrática.
Porque fantasma que se ignora perde força.
Mas fantasma que é denunciado — politicamente, criticamente, satiricamente — desaparece.
