Com “O” grande no fim, porque o montante também é grande. Muito grande.
D e repente, o Funchal está entregue a um CarvalhO carregado de dinheiro, firme, robusto… pelo menos no discurso. São 136 milhões que tanto podem dar sombra à cidade como cair todos de uma vez, se ninguém olhar para cima.
A expectativa é elevada. Afinal, com este dinheiro dava para resolver problemas estruturais, investir em saneamento, mobilidade, habitação, qualidade de vida. Mas isso seria a versão aborrecida da governação. A versão mais provável envolve obras que ninguém pediu, estudos que ninguém lê e eventos que duram um fim de semana.
O CarvalhO apresenta-se sólido, mas a pergunta mantém-se: vai dar fruto ou só fazer folha? Porque na Madeira já vimos muita árvore orçamental frondosa que, no fim, só serviu para lenha política.
136 milhões nas mãos de um presidente de câmara exigem visão, planeamento e escrutínio. Infelizmente, o histórico ensina-nos que, quando o dinheiro é muito, a criatividade institucional dispara, não para resolver problemas, mas para os disfarçar com alcatrão novo e inaugurações em série.
Há também a questão da transparência. Um CarvalhO saudável precisa de luz. Mas aqui, os relatórios costumam crescer em zonas sombrias, longe do olhar dos munícipes, enquanto as decisões surgem já prontas, embrulhadas em linguagem técnica e entusiasmo forçado.
No fim, o Funchal fica a olhar para o CarvalhO e a torcer para que estes 136 milhões não se transformem apenas em mais um tronco pesado de promessas, difícil de mover e impossível de explicar.
Porque dinheiro público não é adubo político.
E um CarvalhO mal tratado pode cair — normalmente em cima da policia judiciária.
Os 136 milhões também levantam uma questão filosófica: quem fiscaliza quem gere tanto dinheiro? Porque, na Madeira, a transparência costuma aparecer mais em discursos do que em relatórios claros e acessíveis. E quando o valor tem oito algarismos, a memória institucional tende a ficar seletiva.
Espera-se que o dinheiro sirva para melhorar a vida real — não apenas para alimentar inaugurações em série e comunicados otimistas.
Gerir 136 milhões é uma responsabilidade enorme. Mas, na política regional, já aprendemos que o problema nunca foi a falta de dinheiro — foi sempre a falta de noção.
Boa sorte ao Funchal. Vai precisar.
