Ferry de Papel.


Alianças invisíveis, navios imaginários e o teatro do “ferry”.

O JPP voltou a descobrir o seu ferry favorito: aquele que só existe nos comunicados. Entre “alianças externas” que ninguém vê e promessas que evaporam ao primeiro pedido de provas, o partido transforma cada anúncio num exercício de imaginação política. É mais teatro do que transporte e, como sempre, sobra fumaça onde deveria haver um plano.

O JPP assegura que tem “alianças políticas externas” prontas a ressuscitar a ligação marítima com o continente. A declaração, vaga o suficiente para caber num saco de supermercado, serve sobretudo para manter viva a narrativa populista do partido: a ideia de que a solução está sempre ao virar da esquina, desde que a população acredite com suficiente fervor.

Nenhuma das “alianças” é identificada, especificada ou demonstrada. Não há operadores, contratos, memorandos, datas, números ou custos. Há apenas a palavra mágica: “garante”. Em política, quando alguém precisa de garantir, é porque não pode provar.

Élvio Sousa reforça que “a Região não pode ficar eternamente à espera do Estado”. Mas curiosamente, toda a proposta depende exactamente do Estado que o próprio JPP acusa de inação. É a habitual acrobacia retórica: culpar quem se declara indispensável, prometer o que não se controla, e apresentar ambição sem responsabilidade orçamental.

No fim, ficamos com um anúncio sem conteúdo, uma promessa sem fundamento e uma estratégia que não ultrapassa o nível da propaganda. A linha ferry não se constrói com alianças invisíveis, nem com indignação performativa. Constrói-se com rigor, planeamento, financiamento e competência governativa, tudo aquilo que o JPP insiste em substituir por espectáculo.»

No fundo, o “ferry” do JPP não passa de papel molhado: promete navegar, mas afunda-se antes de sair do porto. As “alianças externas” continuam tão concretas como um mapa desenhado a lápis de cera, e a estratégia reduz-se a recitar garantias vazias enquanto acusa o Estado de não fazer aquilo que o próprio partido não consegue sequer começar. É política de cartonagem: muito barulho, zero substância. E como sempre, quando se rasga o embrulho populista, fica-se a ver o que o JPP realmente oferece, nada além do espectáculo.