T odos os anos milhares de docentes elaboram relatórios docentes, quando as notas já estão previamente atribuídas. Os relatórios de autoavaliação, com um máximo de três páginas, têm de ser entregues anualmente, sob pena de os profissionais perderem um ano na contagem do tempo de serviço.
O resultado final é apresentado numa escala de 1 a 10, com arredondamento que pode ir às milésimas. Estas classificações são depois convertidas em menções qualitativas. Com classificação de Bom (igual ou superior a 6,5), os docentes podem progredir de escalão se já tiverem o tempo de permanência necessária. Quando têm Muito Bom ficam com uma “bonificação de seis meses na progressão na carreira” e com um Excelente este bónus é de um ano.
Estas menções permitem também que não se fique a marcar passo no 5.º e 7.º escalões da carreira por não haver vagas nos patamares a seguir, uma vez que permitem a progressão automática.
Não tenho muitas dúvidas de que este tipo de avaliação possa servir a uma minoria que beneficia de ano para ano da letargia dos demais que, desmotivados, cansados, exauridos, aceitam para não reclamar, para não levantar ondas. Assim, sem forças para publicamente se revoltarem, os professores entregam de bandeja, aos amigalhaços dos diretores das escolas as avaliações superiores, ainda que estes muitas vezes nem prática docente – o objeto de avaliação – tenham. Docentes que dão aulas em bairros, onde a matéria é comer bolinhos, entreter reformados ou desempregados e tirar fotografias pomposas, que configuram os computadores ou fazem tabelas e tabelinhas de Excel que os docentes mais velhos não conseguem fazer, que jogam ou veem futebol com os membros das direções, que são comadres da bilhardice com a diretora, simples bufos, ou inúmeros outros cargos inúteis que existem nas escolas e cujos titulares, ainda que não deem aulas são agraciados com notas de excelência.
E tudo isco acontece porque hoje ser professor é uma profissão menor, desvalorizada, um professor do ensino não superior que consiga chegar ao topo da carreira ganha menos que um juiz estagiário. Por outro lado, em início de carreira, um professor aufere 1523,18€ brutos contra os 3324€ de um juiz estagiário.
Não nego que poderá haver alguns professores que não o deviam ser, mas também é verdade que a maioria é competente e dedicada. A situação da atual avaliação docente é só mais um, entre muitos, entrave à captação de novos profissionais numa altura em que é sabido que a falta de professores é uma realidade. Mas, pelo que prevejo, o Dr. Jorge Carvalho prefere propalar a escola do futuro a refletir sobre o futuro da escola, sempre com discursos pomposos sobre equipas fantasmas de avaliação externa, tão externa que ninguém sabe quem são.
Todas as escolhas feitas na educação tendem para a mais económica e miserabilista – o poder nas escolas é vitalício se obedecerem ao chefe – vede os casos do professor Joaquim que tinha a ideia ousada de pensar pela sua cabeça e depois de afastado continua a passar as passas do Algarve na escola das madalenas e da professora Gilberta que obedecendo cegamente escapa às garras da justiça ainda que tenha dado milhares de euros de prejuízo ao estado (uma gestora de mérito) - pouco interessado está o atual secretário ou os líderes sindicais em trazer qualidade ao ensino. Seja cuidando dos que estão, desde logo com uma avaliação meritória, decente, motivante, que enalteça e desenvolva de facto os melhores profissionais, de modo a tornar a carreira atraente para novos profissionais.
Não se consegue motivar trabalhador nenhum no mundo quando se lhes diz que de 20 extraordinários profissionais, só dois vão poder progredir. Outra grande questão é o facto de os professores que avaliam carecerem de um reconhecimento de competências para a função por parte dos seus pares assim como pelas qualificações académicas ou currículo distinto – tantas vezes são os mais incompetentes a avaliar. Não pode ser qualquer colega que avalia outro qualquer colega. Não valoriza o processo.
Nota do CM: autor, a imagem veio muito pequena para suportar todas as plataformas.
Enviado por Denúncia Anónima
Quarta-feira, 18 de Setembro de 2024
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